Chego a casa cansado.
Cansado das burocracias, dos papéis, das exigências que pouco ou nada têm a ver com as crianças.
Cansa alertar os pais.
Cansa explicar que, quando estão doentes, os miúdos precisam de ficar em casa, de recuperar, de serem cuidados.
Se sabemos isso quando somos nós… porque é tão difícil perceber quando são eles?
Cansa insistir no essencial.
Porque, no fundo, não somos nós que somos prejudicados… são as próprias crianças.
E depois há os papéis.
Documentos obrigatórios que, alguns, pouco dizem sobre aquilo que realmente fazemos, pouco mostram a nossa prática, pouco refletem o mais importante: as crianças.
Montamos uma secretária ao fundo da sala… e, sem darmos por isso, o brincar começa a desaparecer, a presença evapora-se.
Aquilo que devia ser uma profissão de afeto, de descoberta e de relação, transforma-se, por momentos, numa corrida contra o tempo e contra o sentido do Ser Criança.
Dou por mim a pensar, através do cansaço:
“Se ser educador é isto.... Então vou fazer as malas e abandono, agora, a profissão.”
Mas depois…
Recebi uma visita, um desenho, um pequeno gesto de carinho e de reconhecimento.
E, de repente, chamou-me ao que valia a pena, acreditar na infância.
Naquele papel vinha algo maior do que qualquer relatório: reconhecimento, memórias, infância, relação e respeito.
Saio cansado? Sim, muitas vezes.
Mas percebi, mais uma vez, que o que fazemos pode não ser extraordinário, mas valoriza o sentido de Ser Criança, o respeito, e por si só, traz-nos suor, traz-nos um trabalho árduo e uma consciência e uma intencionalidade profissional que precisa de ser relembrada.
Não ensinei conteúdos, ajudei e fui parte da construção de aprendizagens.
Criei espaço para o pensamento.
Permiti que pudessem errar e que voltassem a tentar.
E talvez seja isso que fica.
Não ficam os papéis, as burocracias ou o tempo interminável em reuniões.
Ficam os abraços, as memórias, o sentimento de terem sido vistas, ouvidas e respeitadas.
Por isso, afinal, decidi, não vou fazer as malas, vou guardá-las.
Porque, no meio de tudo isto, continua a valer a pena ser educador.
Continua a valer a pena defender e acreditar nas crianças.
Pelas crianças e pela Infância, sempre.
Estou passando por um momento de incerteza, de desafio, questionamentos. E esse texto apareceu pra mim, como uma resposta, como um acalento. Eu vou persistir, eu vou acreditar e eu vou voltar aqui pra contar. Obrigada Deus, por essa mensagem que eu tanto precisava ler!!!
Amanda.